Escolas parcialmente fechadas, professores fora da zona de conforto e trabalhando três turnos para atender o mínimo necessário, formação continuada de professores às pressas, ensino não presencial tentando salvar um ano praticamente perdido, o ENEM adiado para 2021, a saúde mental dos estudantes e das famílias debilitada, todos se perguntam quando, poderemos voltar ao normal.

Que “normal” é esse? Será que tem volta? Mas a pergunta é se queremos voltar a ele? E por que queremos voltar?

Analisando o cenário da educação brasileira, os dados anteriores a pandemia, evidenciam que estávamos muito longe do que se poderia chamar de minimamente “normal”. Segundo os dados do INEP de 2019, os estudantes têm acesso às escolas, porém começam a abandonar ao longo dos anos escolares, quando ainda não adquiriram competências essenciais para a convivência social e o ingresso no mundo do trabalho ou mesmo para gerir a sua própria vida.

Em 2019, de cada 100 estudantes que ingressaram na escola, 89 concluíram os Anos Iniciais do Ensino Fundamental aos 12 anos de idade, com 60% da aprendizagem esperada em Língua Portuguesa e 49% da aprendizagem esperada em matemática. 78 concluíram ao Anos Finais do Ensino Fundamental aos 16 anos, com 39% de aprendizagem esperada em Língua Portuguesa e 21% da aprendizagem esperada em Matemática. 65 concluíram o Ensino Médio aos 19 anos, com 29% da aprendizagem esperada em Língua Portuguesa e 9% da aprendizagem esperada em Matemática.

Situação que permanece inalterada desde 2009, com pequenas variações. No Ensino Médio falamos de aproximadamente 500 mil estudantes que desistem todos os anos, ou seja, o custo aluno/ano para os governos é de aproximadamente R$ 6.000,00 aluno ao ano. Portanto há um desperdício de 3 bilhões por ano em evasão escolar. Evidente que quando comparamos com a geração anterior, hoje com idade entre 50 e 60 anos, os dados revelam que a geração atual é mais escolarizada, embora ainda 35% desistem pelo caminho e os que concluem estão deficitários em competências essenciais ao mundo do trabalho ou para seguir a vida acadêmica.

O principal processo de ingresso ao Ensino Superior é o ENEM, em 2019 aproximadamente 5 milhões de estudantes disputaram as aproximadamente 400 mil vagas para as universidades federais. Esse ano o ENEM foi adiado para janeiro de 2021. Como opção para os demais concluintes do Ensino Médio, temos as universidades privadas e a difícil missão de conseguir um crédito educativo ou uma bolsa de estudos. Porém, ocorre outro abandono nas universidades federais, aproximadamente 30% dos estudantes que entram abandonam os estudos entre o primeiro e o terceiro ano.

A evasão é multifatorial em suas causas, embora diversas pesquisas apontem o SiSU* pelo suposto aumento da evasão nos cursos superiores. Outros fatores conjunturais – como greves prolongadas e medidas administrativas internas de cada IES (por exemplo, critérios mais rígidos de jubilamento) – têm, frequentemente, muito mais peso e significância para os resultados da evasão do que a adoção do SiSU.

*A partir de 2010, alteração no sistema de seleção para as instituições federais de ensino superior (Ifes), as quais puderam optar, em troca de benefícios governamentais, pela adoção do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), que adota as notas do ENEM como referência para a alocação de vagas na educação superior pública federal. Caracterizado por ser um sistema que permite aos candidatos a pleitearem cursos superior públicos em qualquer Unidade da Federação, o SiSU promoveu, entre outros aspectos, aumento da mobilidade geográfica dos estudantes.

A interpretação mais imediatista dessa medida consistiu em avaliar que a mobilidade supostamente prejudicava o acesso de estudantes locais aos cursos superiores do entorno de suas residências e que a distância geográfica da residência de origem seria fator de estímulo à evasão.

No ensino superior das redes privadas a evasão é de aproximadamente 60% dos estudantes ao longo do curso. E para os que concluem nem sempre o sucesso está garantido: cerca de metade das pessoas com educação superior no Brasil trabalha em atividades que exigem competências e habilidades definidas pela BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que deveriam ser mobilizadas no Ensino Médio. Que “normal” é esse?

A Pandemia gerou uma crise global, criou ou acelerou tantas tendências sociais, mais especificamente na educação, veio potencializar as diferenças de oportunidades de aprendizagem de qualidade para alunos pobres e ricos, de redes públicas e privadas, entre pretos, pardos e brancos, nas diferentes regiões do País, e os impacto serão evidenciados pelas estatísticas ao longo dos próximos anos.

Aspectos emocionais, físicos e de aprendizagem deverão ser observadas, em especial, por que escola é espaço de convivência social mediada e não se trata de um retorno ao “normal”, a um ponto conhecido, mas de retomada das aulas presenciais em um novo cenário sanitário, econômico, social, que exigirá uma ampla articulação entre diferentes áreas e governos – municipais, estaduais e federal, educação e saúde, assistência social e a sociedade em geral. Para ter agilidade na tomada de decisões, faz-se necessário um Sistema Nacional de Educação que integre as ações entre os entes federativos e o governo central.

Queremos voltar a esse normal? Definitivamente não!

A pandemia trouxe um imenso ponto de interrogação para toda a sociedade e deixou expressa a ideia de que o futuro é uma construção humana, que deve ser alicerçada em evidências e conhecimento científico, bem como em novos contratos sociais. É urgente que o Brasil prove sua capacidade de definir que a Educação precisa ser considerada como um bem comum. O único capaz de transformar efetivamente um país. E então, construir de verdade um novo capítulo na história da educação no Brasil, o “novo real” da educação.