Que semana foi essa tendencias

Pandemia: a ciência, que era o bandido, é hoje a grande a utopia

100 DIAS QUE MUDARAM O MUNDO

Para historiadora Lilia Schwarcz, pandemia marca fim do século 20 e indica os limites da tecnologia

Um milhão e quinhentas mil pessoas infectadas pelo mundo —um terço delas na última semana. Oitenta e sete mil mortos em uma velocidade desconcertante. O fim dos deslocamentos. Milhões de pessoas obrigadas a readequar suas rotinas ao limite de suas casas. Há 100 dias, o mundo parou.

Em 31 de dezembro de 2019 um comunicado do governo chinês alertava a Organização Mundial da Saúde para a ocorrência de casos de uma pneumonia “de origem desconhecida” registrada no sul do país. Ainda sem nome, o novo coronavírus alcançaria 180 países ou territórios. “É incrível refletir sobre quão radicalmente o mundo mudou em tão curto período de tempo”, indica o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus.

Para uma das principais historiadoras do país, no futuro, professores precisarão investir algumas aulas para explicar o que vivemos hoje —momento que, para ela, pode ser comparado à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. “A quebra da Bolsa também parecia inimaginável”, afirma Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA. “A aula vai se chamar: O dia em que a Terra parou.”

Lilia sugere ainda que a crise causada pela disseminação da covid-19 marca o fim do século 20, período pautado pela tecnologia. “Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites”, diz.

A seguir, trechos da entrevista em que a historiadora compara o coronavírus à gripe espanhola, de 1918, diz que o negacionismo em relação a doenças sempre existiu e afirma que grandes crises sanitárias construíram heróis nacionais, como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e reforçaram a fé na ciência.

Ao longo do texto, as imagens de street art e de pessoas usando máscaras mostram o nosso novo normal.

Completam-se 100 dias desde que o primeiro caso de coronavírus, na China, foi notificado à Organização Mundial de Saúde. Podemos considerar que esses 100 dias mudaram o mundo?

É impressionante como um uma coisinha tão pequena, minúscula, invisível, tenha capacidade de paralisar o planeta. É uma experiência impressionante de assistir. Eu estava dando aula em Princeton [universidade nos EUA], e foi muito impressionante ver como as instituições foram fechando. É uma coisa que só se conhecia do passado, ou de distopias, era mais uma fantasia.

Nunca se sai de um estado de anomalia da mesma maneira. Crises desse tipo fecham e abrem portas. Estamos privados da nossa rotina, sem poder ver pessoas que a gente gosta, de quem sentimos imensa falta, não podemos cumprir compromissos.

Mas também abre portas: estamos refletindo um pouco se essa rotina acelerada é de fato necessária, se todas as viagens de avião são necessárias, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, com menos poluição.

Então, talvez abra [a oportunidade] para refletir sobre alguns valores como a solidariedade. Todo mundo que diz que sabe o que vai acontecer está equivocado, a humanidade é muito teimosa. Mas penso que estamos vivendo uma situação muito singular, de outra temporalidade, num tempo diferente. Isso pode romper com algumas barreiras: estamos vivendo num país de muito negacionismo. No Brasil vivemos situação paradoxal, o presidente nega a pandemia.

Mas o mundo, neste momento, é outro?

Neste exato momento em que conversamos, o mundo está mudado. Nós que éramos tão certeiros nas nossas agendas, draconianas, de repente me convidam para um evento em setembro, eu digo: “Olha, não sei se vou poder ir, se vai dar para confirmar”. Essa humanização das nossas agendas, dos nossos tempos, eu penso que já mudou, sim.

Ficar em casa é reinventar sua rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira [à nova rotina]. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, vai correr, vai para o trabalho, vai para o outro, chega em casa exausta. Agora, sou eu tendo que me inventar numa temporalidade diferente, que parece férias mas não é. É um movimento interior de redescoberta.

Insisto que nem todos passam por isso. [O filósofo francês] Montaigne dizia: “A humanidade é vária”. Nem todos estão passando por isso da mesma maneira, depende de raça, classe, há diferenças, varia muito.

E em relação aos papéis sociais dos homens e das mulheres?

Nós, mulheres, já temos um conhecimento distinto dos homens na noção do cuidado, na casa, acho que a mudança vai ser maior para os homens, que não estão acostumados com o dia a dia da casa, com fazer comida, arrumar. Essa ideia de cuidado foi eminentemente uma função feminina.

E estou muito interessada em ver como os homens vão lidar com essa ideia de ficar em casa e ter que cuidar também. É uma experiência muito única que vivemos.

Pandemia marca o fim do século 20

Há discussões que dizem que o século 20 carecia de um “marco” para seu fim e que as primeiras décadas do século 21 ainda estavam lidando com a herança do século passado. A senhora concorda? Essa pandemia pode funcionar como esse divisor?

Sim. [O historiador britânico Eric] Hobsbawn disse que o longo século 19 só terminou depois das Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo. Ele tem razão, o longo século 19 terminou com a Primeira Guerra, com mortes, com a experiência do luto, mas também o que significou sobre a capacidade destrutiva.

Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites

Mostra que não dá conta de conter uma pandemia como essa, nem de manter a sua rotina numa situação como essa. A grande palavra do final do século 19 era progresso. Euclides da Cunha dizia: “Estamos condenados ao progresso”. Era quase natural, culminava naquela sociedade que gostava de se chamar de civilização.

O que a Primeira Guerra mostrou? Que [o mundo] não era tão civilizado quando se imaginava. Pessoas se guerreavam frente a frente. E isso mostrou naquele momento o limite da noção de civilização e de evolução, que era talvez o grande mito do final do século 19 e começo do 20. E nós estamos movendo limites. Investimos tanto na tecnologia, mas não em sistemas de saúde e de prevenção que pudessem conter esse grande inimigo invisível.


A senhora já assinalou que a gripe espanhola matou muito mais do que as duas Grandes Guerras juntas e que, assim como vivemos hoje no Brasil, houve muito negacionismo e lentidão na tomada de decisões. Não aprendemos essa lição? Por que é difícil não repetir os erros?

A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise, sanitária, a nossa primeira reação é dizer: “Não, aqui não, aqui não vai entrar”. Antes de virar pandemia, as mortes são distantes, esse discurso do “aqui não”, é muito claro, é natural, com todas as aspas que se pode colocar, porque o estado que queremos é de saúde. Mas nós também somos uma sociedade que esquece o nosso próprio corpo, ele serve para botar uma roupa, pentear o cabelo, é como se ele não existisse.

É demorado assumir, o negacionismo existiu sempre. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de grande hospital e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando entra [o presidente] Rodrigues Alves e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam matando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar contra a varíola.

Mas na época a população não entendeu, não foi informada e reagiu. O mesmo presidente que indicou Osvaldo Cruz é o que vai estar no poder no contexto da gripe espanhola. Osvaldo Cruz já tinha morrido, então indica o herdeiro dele, Carlos Chagas. [Com a gripe espanhola] As autoridades brasileiras já sabiam o que estava acontecendo, mesmo assim não tomaram atitude. A gripe entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e aí explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: “Aqui não, é um país de clima quente, não é de pessoas idosas”.

Como pode falar em ter menos risco no Brasil porque a população é mais jovem, se é muito mais desigual que países europeus que já estão sofrendo? O negacionismo cria o bode expiatório, é recorrente.

Mas por que não aprendemos com os erros do passado?

Porque o negacionismo nega a história também. É dizer: “Em 1918 não tínhamos as condições que temos agora, não tínhamos a tecnologia”. Então também se pode usar a história de maneira negacionista, negando o passado e dizendo que isso aconteceu naquela época mas não vai acontecer agora.

Quando se fala em guerra, o que acontece? Por que todos os países têm seu exército e tem reserva? Porque, na hipótese de ter uma guerra, temos que ter um exército, tem toda uma população de reserva na hipótese de ter guerra.

Se o estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, o que já deveria ter sido feito? Uma estrutura para atender guerras de saúde, e isso não é só no Brasil, mas os estados não fazem, não existe um sistema para prevenir as pandemias.

A doença só existe quando as pessoas concordam que ela existe, é preciso ensinar para população. Se não tem esse comando, as pessoas não constroem a doença e continuam a negá-la

As reações contra a gripe espanhola foram muito semelhantes às de agora: poucas pessoas andavam nas ruas, quem andava estava de máscara, igrejas fechadas, teatros lavados com detergente. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser esperar pelo remédio ou pela vacina.

Realidade será marcada por nova posição das mulheres

Nos acostumamos com o discurso de que os idosos vão morrer quase que inevitavelmente caso sejam infectados. O que isso mostra sobre a maneira como lidamos com as pessoas mais velhas?

Mostra que somos uma sociedade que preza a juventude e faz o que com a história e com os idosos? Transforma tudo em velharia. Eu particularmente não acho que juventude seja qualidade. É uma forma de estar no mundo. Você pode ser jovem na terceira idade, ou um velho jovem. Essa nossa construção da juventude faz muito mal.

E a pergunta que cada um de nós tem que se fazer: alguém tem direito de dizer quem pode morrer ou não? Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis, e aí se incluem os idosos, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só na questão simbólica, também na questão prática.

O que é não lidar com a velhice? É uma forma que nós temos de não lidar com a morte, não sabemos falar do luto. Não vemos o presidente falar uma palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, é como se não quisesse falar da morte.

Estamos esticando a nossa linha do tempo, as pessoas não podem envelhecer, e ao mesmo tempo estamos acabando com nossa capacidade subjetiva. Velhice é vista só como momento de decrepitude. Não são valores que são estimados pela população e no nosso século.

Tem a ver com tecnologia também: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, o isole. E ele que aguarde a morte.


Remédios milagrosos também fazem parte da história das pandemias?

Todos nós sempre esperamos por um milagre. Nossa prepotência é um pouco esta: achamos que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, mas todos nós esperamos por um milagre sempre.

Todo mundo quer ouvir o que o presidente fala: “Tenho um remédio que vai acabar com isso tudo”. Que pensamento mágico é esse? A crise vai mudar o mundo? Depende do quanto as pessoas saírem do pensamento mágico, refletirem mais sobre seus castelos de verdades.

A pandemia traz alguma mudança em relação à história das mulheres?

A questão das mulheres é também questão de gênero e classe social. Mulheres de classes média e alta têm muitos recursos e podem lidar mais livremente com trabalho. O que é muito diferente no caso de mulheres pobres, negras, que vivenciam ainda mais essa situação. Há muitas enfermeiras negras e pardas. A posição da enfermeira é de cuidado também, com os pacientes, até com os médicos, ela desempenha esse papel que tem no interior da sua casa no sistema de saúde.

E essas mulheres são vulneráveis porque muitas delas estão nas lidas dos hospitais, sem proteção necessária, e porque estão nas lidas das suas casas.

Os séculos 20 e 21 são da revolução feminista, como já vai aparecendo. As mulheres não vão voltar atrás. Teremos uma realidade marcada por uma nova posição das mulheres

Eu desejo que as pessoas usem esse momento para repensar suas verdades, e dentre as muitas verdades [que precisam ser repensadas, está essa questão de gênero muitas vezes invisível: mulheres ocupam as posições de cuidado sem ser vista.

2020 – O ano em que a Terra parou

Como um professor de história explicará a pandemia de 2020 daqui a 100 anos?

Vai explicar como o crash da Bolsa de Nova York é explicado hoje. Essa pandemia vai merecer algumas aulas. A quebra da Bolsa também parecia inimaginável, e estamos vivendo situações que são anomalias nesse sentido, porque são inimagináveis.

O professor de história terá que lidar com o fato de que a pandemia poderá marcar o final de um século e começo de outro, como também conseguiu parar o mundo em tal atividade e com tal rotatividade, e com tanta velocidade. Nós aceleramos muito, e agora tivemos que parar.

O título da aula será: “O dia em que a Terra parou”

A ameaça da pandemia também deu mais voz a quem tenta chamar a atenção para as condições de moradia e saúde precárias de uma parte significativa dos brasileiros. A crise é também uma oportunidade para uma mudança social?

O Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência de desigualdade social, há classes sociais muito distintas no alcance das benesses da tão proclamada civilização. O Brasil é o 6º país mais desigual do mundo. Tendemos também a negar a desigualdade. Não acho que será pior com classes baixas do que será com idosos, são grupos muito vulneráveis [ao risco de agravamento].

Na gripe espanhola, os grupos mais afetados eram as populações pobres, dos subúrbios. As vítimas tinham entre 20 a 40 anos, mas muitos mais morreram em nome da civilização, porque a pobreza foi expulsa [do centro]. E as epidemias são impiedosas. Quando dizem “Fique em casa, mantenha o isolamento”, tem que refletir sobre as condições que moram essas populações.

Em um Brasil tão múltiplo, com condições sociais tão diferentes, os mais pobres serão as populações mais afetadas. O Brasil também é o terceiro país em população carcerária. Me tira o sono o que vai acontecer se a pandemia entrar nas prisões. Se é que já não chegou e nós não sabemos. Se isso acontecer, quando chegar nos mais pobres, vamos ter que enfrentar como é perversa a correlação de pandemia e desigualdade social.

No Brasil, que tem uma saúde dividida entre privada e pública, as pessoas de mais renda nem pensam em usar a saúde pública. A doença faz isso, vai nivelar, porque atinge as várias classes sociais.

Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Mandetta

Já podemos vislumbrar alguma aprendizagem com a crise atual?

Eu penso que sim, vários países já estão começando a pensar no exército de reserva, como vamos construir não só uma estrutura para reagir à pandemia mas que também se antecipe.

O problema é que nós vivemos um governo no Brasil que não acredita na ciência. Vamos ver se aprendemos de uma vez, que a gente pense no que a ciência produz. Em horas como agora fica mais claro: a saída virá da ciência, com a vacina ou remédio que venha controlar a pandemia.

Não estranharia se tivermos os próximos presidentes médicos, o que estamos aprendendo nos vários países é a importância do Ministério da Saúde, e de termos de fato especialistas nos ministérios, contar não apenas com um político, mas com um político especialista.


Que grande mudança política já é possível dizer que a pandemia trouxe ao Brasil?

Ela está acontecendo. O presidente foi destituído pelo Ministro da Saúde [quando o Bolsonaro insinuou que [o ministro da Saúde, Luiz Henrique] Mandetta seria demitido mas recuou após pressão]. Você já está verificando um crescimento dessas figuras, como aconteceu na época da Revolta da Vacina [1904], o grande herói daquele momento era Oswaldo Cruz, e na gripe espanhola, Carlos Chagas virou grande herói nacional.

Espero que essas pessoas, se chegarem a esses lugares, não usem a posição para garantir mais poder, torço muito para que usem de forma generosa essa posição.

A política é como cachaça, quem tomou não abre mais mão. É o caso de não baixar a vigilância cidadã em relação a políticos médicos. Mandetta, que está ocupando bem seu cargo, foi profundamente ideológico, com a carreira vinculada a seguros médicos privados, e, por ideologia, acabou com o Mais Médicos.

As pessoas olhavam para nós, acadêmicos, e diziam: “Vocês são parasitas”. Espero que as pessoas reflitam e entendam que o mundo da produção tem temporalidades diferentes.

Uma coisa é o tempo da indústria, da tecnologia, que é questão de segundos. Outra é o tempo do cientista, que usa da temporalidade mais alargada para descobrir novas saídas. As pessoas vão começar a entender, como na época da gripe espanhola, porque Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantor e jogador de futebol — as charges falavam isso.

A ciência, que era o bandido, é hoje a grande a utopia.

Publicado em 9 de abril de 2020.

Reportagem: Camila Brandalise e Andressa Rovani Edição: Andressa Rovani Fotos: Getty Images

https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/index.htm?fbclid=IwAR1HU4K2rwhMkI3Osh7kq2igizLj5uxhJcGypRi2rx7sQWYWh94iGyKwzGU#tematico-6

Antropóloga e historiadora, Lila Schwarcz é professora titular na Universidade de São Paulo e professora visitante na Universidade de Princeton, nos EUA. É autora de uma série de livros, entre eles: “Sobre o autoritarismo brasileiro“; “Espetáculo das raças” e “Brasil: Uma biografia”. É editora da Companhia das Letras, colunista do jornal Nexo e curadora adjunta para histórias do Masp.

Que semana foi essa conexao

Como será a educação após a pandemia? – 7 perguntas e 4 especialistas

Covid-19: especialistas discutem rumos da educação brasileira após fim do isolamento social

O GLOBO ouviu quatro referências no assunto para responder a sete perguntas sobre o sistema educacional do Brasil no cenário pós-pandemia

RIO — Com mais de 130 mil escolas fechadas, cerca de 47 milhões de alunos estão sem aulas presenciais desde o fechamento das instituições para conter a propagação do novo coronavírus no país, segundo estimativa do coordenador de desenvolvimento humano do Banco Mundial para o Brasil, Pablo Acosta. 

Com a data da volta às aulas ainda em aberto, pais e educadores debatem os rumos da educação com o fim da quarentena. Diante do cenário incerto, o governo editou uma medida provisória que dispensa as escolas de cumprir os 200 dias letivos — mas mantém a carga horária de 800 horas. Para especialistas, condensar o aprendizado em menos dias não é a saída.

Da esquerda para direita: os especialistas Catarina de Almeida Santos, Daniel Cara, Andrea Ramal e Priscila Cruz. Foto: Editoria de Arte
Da esquerda para direita: os especialistas Catarina de Almeida Santos, Daniel Cara, Andrea Ramal e Priscila Cruz. Foto: Editoria de Arte

Para tratar deste e de outros temas, como o ensino à distância, a formação dos professores e o papel dos pais na educação dos filhos, O GLOBO convidou Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-RioPriscila Cruz, presidente do movimento Todos Pela Educação, e Catarina de Almeida Santos, professora da UnB e pós-doutoranda em Educação pela Unicamp. Os especialistas respondem a sete questões sobre a educação no Brasil pós-pandemia.

1. Qual é a saída para garantir o aprendizado do ano letivo, e não só pensar em cumprir carga horária? Será preciso repensar o modelo de carga horária/distribuição de conteúdos? 

Andrea Ramal: O ensino atual não deveria ter como referência a quantidade de conteúdos, e sim as competências: os conhecimentos, habilidades e atitudes que os estudantes desenvolvem. Aprender é um processo, não adianta condensar o aprendizado em menos dias e muitas horas diárias. Se os alunos ficarem mais tempo sem ir à escola, é melhor relativizar o “ano letivo” e reorganizar as etapas de aprendizagem em módulos. 

Catarina de Almeida Santos: Teremos que repensar tudo, carga horária, conteúdos, reorganização do ano letivo, com possibilidades reais e necessidade concreta de que o ano letivo de 2020 termine em 2021. Um meio importante nessa reorganização será a inserção na carga horária de atividades orientadas para serem feitas fora do horário de aula. O que não podemos aceitar é a exclusão de parte dos estudantes do direito à educação. Qualquer decisão só pode ser tomada com ampla participação e partir de um cenário definido. 

Daniel Cara: Será preciso repensar e, para isso, teremos de reunir a comunidade educacional para determinar diretrizes gerais. E, em cada caso particular, ouvir cada comunidade escolar. As saídas são a conclusão do ano letivo em 2021, realização de atividades pedagógicas complementares e estruturação de maior carga horária. A educação à distância deve ser um complemento, mas, por ser desigual o acesso, não pode contabilizar no ano letivo.   

Priscila Cruz: Carga horária e calendário são temas que dependem de quando vai acabar a quarentena. Antes de pensar isso, precisamos planejar a volta às aulas, pensar uma sequência de ações a fim de que os alunos consigam repor não só carga horária, para cumprir uma formalidade, mas, principalmente, ter garantida a aprendizagem. Não é a mesma coisa que voltar de férias. Esses alunos ficaram isolados em casa com uma série de problemas, como a violência doméstica, ou ainda perderam parentes para a pandemia. Será preciso fazer um nivelamento, para saber em que ponto está cada aluno. Uma estratégia eficiente seria separar os alunos por classes de desempenho e criar uma intervenção distinta para cada nível de aprendizagem.

2. Qual é a importância do espaço escolar para o aprendizado? A presença física, o convívio social? 

Andrea Ramal: O ambiente escolar é importante para o desenvolvimento de competências socioemocionais: a criança aprende a se relacionar com outros, conviver com as diferenças, trabalhar em grupo, expor ideias e argumentos, ter resiliência para encarar problemas. No homeschooling, esses aspectos podem ser trabalhados, porém, no Brasil, esse modelo ainda não existe e não há como implementá-lo de um dia para o outro. 

Catarina de Almeida Santos: A escola para grande parte do público do sistema público de educação, além de ser a única esperança, é o espaço mais seguro e muitas vezes possível de estudar. Temos muitos estudantes em situação de rua e uma quantidade maior ainda em domicílios que, além de não ter um espaço físico para estudar, não tem nenhuma tranquilidade e segurança. Por mais precárias que estejam as nossas escolas, ainda são elas e seus profissionais que acolhem, identificam problemas que os estudantes têm fora delas, se arriscam para resolver e fazem com que os estudantes acreditem que podem ser alguém. Nós nunca deveríamos esquecer o adolescente que foi baleado e perguntou para mãe: “Ele não viu que eu estava com roupa de escola?”.  

Daniel Cara: A educação se realiza no processo de ensino-aprendizado. Os alunos aprendem com os professores, mas também entre si. Essa é a regra. Pode haver exceções? Sim. Mas são raras. A educação é um processo presencial e é um direito. Durante o isolamento social, só é possível complementar o ensino. A educação acontece melhor quando há vínculo e, agora, isso está prejudicado. 

Priscila Cruz: A meu ver, o legado positivo que pode vir desse processo é a valorização das escolas. A gente vem recebendo testemunhos, desabafos de mães, pais, do Brasil inteiro: os alunos estão sentindo falta de interação, inclusive com outros adultos que não os da família deles. São adultos que pensam diferente, que tem outros pontos de vista, outros lugares de fala e que podem oferecer outro tipo de acolhimento.   

3. Qual o impacto da pandemia/quarentena no pensamento sobre ensino a distância no Brasil? 

Andrea Ramal: O ensino online ganhará mais adeptos. Muitos professores que ainda não usavam ambientes virtuais de aprendizagem tiveram que mergulhar e aprender novas práticas em poucos dias. Milhares de professores e estudantes estão gostando da experiência e pode ser que a educação à distância se amplie ainda mais, sobretudo no ensino superior. Já na educação básica, valerá como um ensaio, mas ficará claro que ainda estamos longe de fazer ensino online efetivo. 

Catarina de Almeida Santos: Muito ruim, pois a pandemia tem sido usada para deturpar a modalidade, difundir concepções simplistas do processo de ensino-aprendizagem, comercialização de soluções ilusórias para os problemas da educação no país, apropriação de dados de professores, estudantes e seus responsáveis, por parte de muitas plataformas que lucrarão durante e depois da pandemia. O que se vende é que a tecnologia resolverá tudo, deixando de ser meio e se tornando fim.   

Daniel Cara: Há muito oportunismo. Educação à distância não é eficaz para a educação básica, que vai da creche ao ensino médio. Tampouco para a graduação. É simples a questão: se estávamos indo mal com Educação Presencial, agora está mais difícil. Com isso não estou dizendo que ela não pode ser usada. É um recurso, mas não pode contar para a realização do ano letivo. Há muito desespero, muito oportunismo e pouca preocupação pedagógica. 

Priscila Cruz: É claro que o que está acontecendo agora deve dar algum impulso para o ensino remoto. Alguns professores que não planejavam ir para esse caminho acabaram se familiarizando com esse instrumento. O ensino remoto pode ser muito usado na volta às aulas para complementar o aprendizado. Nunca a educação à distância substitui, nem é tão boa quanto a educação presencial. 

4. O papel do professor será revisto? Valorizado? Como ficará a formação do professor? 

Andrea Ramal: Com o ensino online, o professor precisa se reinventar. Aulas expositivas podem ser dadas em vídeo, podemos gravar explicações e replicar em escolas e faculdades. Caberá ao professor de cada turma algo muito além disso: desenhar as trilhas de formação de cada estudante, ensinar a refletir, provocar o pensamento crítico, avaliar os resultados. Na nova educação, o professor é um arquiteto cognitivo e um dinamizador da inteligência coletiva. 

Catarina de Almeida Santos: Teremos duas faces da mesma moeda. Os responsáveis que estão lidando com os estudantes em casa, estão descobrindo que ser professor não é coisa fácil. Esses tenderão a valorizar. Mas tem aqueles que estão difundindo a ideia de que o professor pode ser substituído pelos aparatos tecnológicos, que levarão aos estudantes os conteúdos produzidos pelos “especialistas”. A formação precisará reafirmar a importância da tecnologia como meio, que é o que ela é. 

Daniel Cara: O papel do professor está sendo valorizado pelos familiares que são responsáveis pela educação de suas crianças, adolescentes e jovens. Ao acompanhar os filhos, os pais se reconectaram com a complexidade da educação. Porém, para os empresários da educação à distância e gestores públicos irresponsáveis com a educação, agora é a hora de atacar o magistério por meio da educação à distância e da educação domiciliar. Atacam o magistério e o espaço escolar. Curiosamente, ambos são fundamentais para a realização do direito à educação. 

Priscila Cruz: O papel do professor ganhou outra relevância. Ficou muito mais claro para todo mundo como é difícil ser professor. É das profissões mais difíceis e acaba vista pela sociedade de uma forma completamente equivocada, desimportante. Agora, pais e mães estão redimensionando isso. Quanto ao professor, será preciso trabalhar numa formação já para a volta às aulas, tem que estar preparado para um aluno que não é mais o mesmo. 

5. O uso de tecnologias para o ensino vai ser revisto? Entrará mais no radar das políticas públicas? 

Andrea Ramal: A experiência de 2020 será um marco decisivo na educação. As políticas públicas certamente começarão a avançar no que se refere ao ensino online, nas mais diversas frentes para que ele se torne acessível a todos. Isso envolve múltiplos aspectos: viabilizar o acesso a computadores e internet, capacitar professores e famílias, desenvolver materiais adequados, ensinar a estudar a distância, formatar mecanismos de controle, monitoramento e avaliação. 

Catarina de Almeida Santos: Usar as tecnologias tem a ver com as condições de escolas, professores e estudantes. Logo, é preciso rever no conjunto. Isso implica em equipar as escolas com infraestrutura básica, como saneamento, banheiros, salas minimamente adequadas, bibliotecas, laboratórios de biologia, física, química e informática, brinquedotecas, quadras e, sobretudo, professores bem formados e remunerados. Sem isso, não há tecnologia que resolva. 

Daniel Cara: A pandemia pode acelerar o uso da tecnologia na educação. A tecnologia é um meio. E ela deve ser usada. Não como panaceia, mas como instrumento. Contudo, precisa ser distribuída democraticamente. Isso não ocorre hoje. 

Priscila Cruz: Não dá para saber se o uso da tecnologia será ampliada. Justamente pela falta de uma coordenação nacional, que deveria acontecer com a liderança do MEC mas inexiste, a gente tem uma dispersão muito grande de soluções e estratégias. O exemplo de São Paulo talvez seja o mais concreto até agora. Por conta da pandemia, a secretaria firmou uma parceria com a TV Cultura e agora tem um espaço para aulas com os conteúdos da rede de SP. Isso vai ficar para depois. 

6. O tempo da quarentena pode transformar o papel dos pais na educação dos filhos? 

Andrea Ramal: Uma consequência positiva desta quarentena seria que as famílias passassem a participar mais da vida escolar dos filhos e a acompanhar mais os seus estudos. Quando isso acontece, as crianças se interessam mais pelo aprendizado. Ainda não podemos dizer que isso de fato ocorrerá. Mas certamente todos passarão a valorizar mais o papel dos professores, entenderão melhor muitos dos desafios que eles enfrentam e os verão mais como parceiros. 

Catarina de Almeida Santos: Pode, mas não necessariamente para melhor. As pessoas estão romantizando esse processo, e a realidade é outra. Temos pessoas confinadas, em espaços mínimos, com adultos perdendo empregos, reduzindo salários, muitos passando fome e a sociedade tende a ignorar tudo isso. Esse não é um ambiente propício para melhorar relações, e sim para tensionar. As diferentes formas de violência só crescem: abuso sexual, violência doméstica, exploração do trabalho infantil. 

Daniel Cara: Para alguns há essa oportunidade: os pais perceberam que precisam participar mais e as escolas perceberam que é imprescindível envolver os pais. Contudo, como a experiência está sendo traumática para muitos, porque enfrentar a pandemia não é fácil e a saúde mental de todas e todos está sendo desafiada, não é possível cravar. Nesse sentido, precisamos reiterar: a educação, como direito, se realiza na escola. E ela é mais eficaz quando envolve vínculo de toda comunidade escolar no processo de ensino-aprendizado. Isso significa que a participação dos familiares é essencial, tanto quanto a de educadores e educandos. 

Priscila Cruz: Eu sou um pouco mais pessimista com relação a isso. No começo, os grupos (de WhatsApp) estavam lotados até por conta das dúvidas iniciais. Mas existe um esgotamento natural. Os alunos estão esgotados, os pais estão esgotados, e aquela coisa frenética e animada do começo da quarentena vai dando lugar ao esgotamento, à falta de paciência. Claro que é muito bonito quando os pais descobrem o processo de aprendizagem dos filhos, mas, no geral, isso tende a se diluir com o tempo. 

7. Quais as mudanças mais profundas podem surgir na educação depois da pandemia? 

Andrea Ramal: Uma das maiores mudanças será o desenvolvimento do ensino híbrido: parte presencial e parte online. Vamos ressignificar o valor da sala de aula: deveríamos nos encontrar face a face quando este momento fizer sentido, vamos aproveitá-lo melhor. Porém, há riscos: dos mais de 45 milhões de estudantes das escolas públicas, uma parte importante não tem computador nem internet, tampouco tem espaço adequado para estudar em casa. Se essas questões não forem corrigidas, o ensino online pode deixar à margem uma enorme parcela de crianças e jovens, e acirrar as desigualdades. 

Catarina de Almeida Santos: Deveríamos ter uma mudança que pensasse a educação como parte de uma vida digna. Isso significa pensar escolas com estruturas para lidar e colaborar com o desenvolvimento de sujeitos, não cabendo educação subfinanciada, escolas que parecem prisões, pensadas por quem não entende dos alunos reais e muito menos de educação. Assim, a melhor mudança seria que a educação fosse pensada por educadores e não por burocratas economistas. 

Daniel Cara: As mudanças principais serão o uso adequado e bem dimensionado da tecnologia, a valorização do magistério e a valorização e redescoberta do espaço escolar. Além disso e principalmente, a retomada da perspectiva pedagógica, em detrimento do amadorismo empresarial que tem atrapalhado o debate público educacional. O reino da educação é o da pedagogia, da didática e da psicologia e sociologia da educação. O Brasil precisa fazer a Educação reencontrar seu reino. Essa é minha esperança. 

Priscila Cruz: O que já dá para observar é uma demanda maior por planejamento: a gestão está sendo mais desafiada, indo atrás de alunos, tentando solucionar questões de conectividade, e isso pode sim deixar um legado importante, porque a gestão é fundamental.  E aposto também que vamos nos desenvolver com o fator da criatividade, da flexibilidade e de criar soluções em ambientes não ideais. 

https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus-servico/covid-19-especialistas-discutem-rumos-da-educacao-brasileira-apos-fim-do-isolamento-social-24364206

Audrey Furlaneto11/04/2020 – 04:30 / Atualizado em 11/04/2020 – 07:13


Que semana foi essa - leitura

A leitura da semana foi…

Liderança na era da turbulência econômica – Ram Charan

Principais aprendizagens

  • Ter dinheiro no caixa é o que mais importa, especialmente em uma crise.
  • Considere ter que se livrar de alguns clientes e algumas linhas de produtos para reduzir a complexidade, aumentar a eficiência e economizar dinheiro.
  • Seja realista, porém otimista: o medo paralisa.
  • Faça com que as áreas comercial e de marketing mantenham suas equipes de pesquisa e desenvolvimento bem informadas.
  • A crise traz oportunidades porque seus concorrentes podem vacilar ou deixar de investir a longo prazo.
  • Pense em definir novas metas de vendas que estejam em compasso com os tempos atuais.
  • O CFO deve manter o CEO e outros executivos cientes de como diferentes cenários de negócios afetam as finanças.
  • Os Conselhos de Administração devem ter uma compreensão detalhada das métricas financeiras do seu negócio e dos programas de gestão de risco da empresa.
  • Os CEOs e gerentes de unidades devem gerenciar as métricas em tempo quase real.
  • Quem sobreviver à atual crise econômica vai emergir mais forte do que antes.

Resumo

Quando a Crise Atacar, Foque no Dinheiro

Em meio a uma crise econômica, monitoramento e gerenciamento de caixa estão entre as suas responsabilidades mais importantes. Esteja atento ao nível de liquidez da sua empresa todos os dias. Acompanhe o seu fluxo de caixa diário e alterações semanais no capital de giro. Certifique-se de que todos os executivos que precisam de tais informações possam obtê-las. Calcule seu ponto de equilíbrio financeiro e tente reduzi-lo. Uma centralização ou descentralização das operações pode ajudar, dependendo das necessidades da sua empresa. Se necessário, promova cortes no seu quadro de pessoal com prudência, mas de forma diligente; não espere por um forte declínio nas receitas antes de iniciar as demissões.

“Os desafios de gestão não ficarão maiores do que já estão. Não é apenas o seu negócio ou o seu ramo que está em uma recessão, todo o sistema econômico global foi ferido.”

Desde o início da crise global em 2007, ter dinheiro em caixa é o que mais importa; os gestores enfrentam uma falta de liquidez sem precedentes. O colapso da indústria automobilística americana deve deixar lições: as principais montadoras ficaram basicamente sem dinheiro. Evite esse tipo de ruína. Gerencie cuidadosamente seu capital de giro e leve em conta sugestões para a venda de ativos e outros meios de geração de caixa.

Liderança em Tempos de Crise

Ousadia é uma virtude que não deve ser subestimada. Oportunidades sempre existem em crises econômicas. Separe um tempo para identificar e proteger seu negócio principal, seus clientes e ativos. Continue a delegar, mas fique por perto e mantenha-se bem informado. Gestores de topo precisam gastar mais tempo com os detalhes operacionais das suas empresas. Limite as atividades externas e eventos públicos e passe mais tempo com os fornecedores, clientes e gerentes que você mais confia. Reconheça que existe grande pressão sobre o seu pessoal e prepare-se para gerenciar comportamentos relacionados ao estresse, tais como a recusa em partilhar informações. Esteja visível dentro da sua empresa. Realize reuniões de pessoal pelo menos uma vez por semana e converse com a equipe de vendas diariamente: não fale sempre com os mesmos, mas escolha pessoas diferentes todos os dias.

“Os líderes que são realistas sobre o seu ambiente externo, mas ainda assim permanecem positivos e respondem às dificuldades, serão provavelmente mais bem-sucedidos.”

Sobrevivência a curto prazo é a grande prioridade em uma desaceleração econômica perigosa. A gestão de crises pode exigir colocar de lado estratégias a longo prazo existentes e instituir ciclos de negócios mais curtos. Se ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos 12 meses, metas anuais não fazem sentido. Busque sempre a maior intensidade possível de gestão e aprofunde-se no âmago do seu negócio. Os gestores devem dominar os detalhes operacionais nos tempos de crise e conhecer muito bem o terreno: como consumidores e fornecedores estão reagindo e qual o nível de entrosamento destes com sua empresa.

Seis Traços Essenciais de Liderança

Tempos difíceis colocam à prova mesmo os melhores gestores. Ver a realidade é sempre difícil, especialmente quando as circunstâncias são assustadoras. A negação é tão perigosa quanto a paralisia por medo. O desafio dos gestores de topo é convencer suas organizações da gravidade da crise, enquanto continuam a fornecer uma visão que justifique a esperança. Procure mostrar as seguintes características essenciais nos tempos difíceis:

  1. Honestidade e credibilidade – A desonestidade dilui a coragem, humildade e outras qualidades de liderança. Seja humilde, direto, corajoso e digno de confiança.
  2. Habilidade para inspirar – Saiba como mobilizar sua equipe direta e, através dela, a organização como um todo.
  3. Conexão em tempo real com a realidade – Isso é difícil quando a própria realidade muda rapidamente. Colete toda informação crítica e descubra novos fatos e perspectivas.
  4. Realismo temperado com otimismo – Não deixe que as más notícias afundem você no pessimismo. Mantenha seu foco nas possibilidades e nas oportunidades.
  5. Gestão com intensidade – Ouça seus empregados, mostre que sabe encarar os fatos e trabalhe em equipe.
  6. Ousadia na construção do futuro – Invista adequadamente no futuro, preparando sua empresa para a próxima recuperação da economia.

Requisitos da Equipe de Vendas

Seja realista, mas disciplinado sobre seus objetivos de vendas e considere definir novas metas que respondam à situação atual. Os vendedores devem ser os olhos e ouvidos da sua empresa, avaliando o potencial custo ou benefício de cada cliente. Suspenda sua atividade com determinado cliente de forma diplomática, deixando as portas abertas para uma possível relação futura.

“Nesse ambiente volátil e incerto, a realidade é um alvo em movimento.”

O crescimento pode ser uma faca de dois gumes. As empresas precisam de crescimento eficiente e lucrativo que lhes assegure um fluxo de caixa adequado. Por outro lado, as empresas em retraimento podem ganhar força, livrando-se de instalações e linhas de produtos fracas e dispendiosas. Abrir mão de clientes ou produtos com baixo desempenho pode melhorar o fluxo de caixa, simplificando as operações. Analisar como sua base de clientes e portfólio de produtos afetam a necessidade da sua empresa de ter dinheiro em caixa.

“Metas anuais são inúteis quando ninguém consegue prever a demanda daqui a um ano.”

As áreas de vendas e marketing precisam se comunicar com os colegas de pesquisa e desenvolvimento de produtos. Conhecer bem o mercado pode levar a esforços bem sucedidos na busca de inovações lucrativas. Um fornecedor do Wal-Mart mudou suas embalagens e acabou aumentando as vendas e receitas da loja e, portanto, pôde passar a cobrar mais pelos seus produtos.

O Que o CFO Precisa Saber

Os diretores financeiros comunicam com frequência a condição financeira das empresas, tanto interna como externamente, mas a tarefa sai da rotina em uma recessão. Sendo a voz da empresa no mundo financeiro externo, o CFO deve comunicar-se de forma clara, honesta e repetida, visando manter os investidores e credores a par da condição da empresa, incluindo sua taxa de acumulação ou dissipação de capital. Internamente, o CFO deve informar aos gestores corporativos sobre o que está acontecendo com o dinheiro e o que precisa acontecer. Os CFOs orientam os conselhos de administração através das crises, demonstrando quais mudanças são necessárias e disponibilizando com frequência relatórios intercalares. CFOs com visão de futuro têm preparado seus colegas de trabalho para crises econômicas que podem persistir por anos. Mesmo os gestores não financeiros precisam compreender “como variados cenários afetariam o balanço financeiro, incluindo as possíveis consequências de um rebaixamento na nota de crédito”.

“Este é um grande momento para detectar talentos de liderança, observando como os líderes estão lidando com os seus empregos em diferentes condições.”

Os processos orçamentários operacionais e de capital estão sujeitos a alterações em uma profunda recessão. Abordagens obsoletas de remuneração dos executivos podem também precisar de um renovo. Corte com sabedoria a folha de pagamento, caso seja necessário. Certifique-se de usar a foice somente uma vez: demissões recorrentes acabam com a moral. Controlar com cuidado salários e benefícios pode levar sua empresa a uma situação financeira mais sólida. Um novo olhar sobre a conservação do caixa ajudará a empresa alterar salários, incentivos e benefícios. Contrate somente de acordo com a demanda, a fim de atender às necessidades dos clientes. Encontre formas econômicas de recompensar funcionários, cuja moral tem sofrido com a falta de bons planos de aposentadoria e medo de desemprego.

Investimento e Inovação

Calcule e reduza o ponto de equilíbrio da sua empresa antes de caírem as receitas. Pense de forma sistêmica sobre o impacto que suas decisões e ações terão sobre cada área operacional, tanto na empresa como na clientela. Foque suas políticas nas seguintes áreas:

  • Manutenção – Mantenha os gastos com a manutenção regular, pois adiá-la pode sair mais caro.
  • Investimento de capital – Pense duas vezes antes de limitar investimentos de capital, uma manobra tentadora para reduzir custos. Antes de cortar projetos, faça uma reavaliação das suas relevâncias a longo prazo. Afinal, a recessão não vai durar para sempre. Você vai conquistar uma posição competitiva mais forte se, ao contrário dos concorrentes, investir em novas tecnologias.
  • Varejo e atacado – Simplifique sua linha de produtos. Metade dos seus produtos provavelmente não produzem mais do que 5% das suas vendas, portanto reduzir sua linha de produtos pode aumentar a eficiência. Considere terceirizar operações que não sejam críticas.
  • Fabricação – Analise se fechar fábricas, subcontratar, automatizar ou outra iniciativa poderia afetar sua posição de caixa total.
  • Gestão de marcas – Proteja a sua marca. Ajuste os preços com cuidado para que estejam de acordo com seu posicionamento estratégico. Caso seja necessário cortar gastos com promoção, faça de forma pensada.
  • Pesquisa e desenvolvimento (R&D) – Reveja e reequilibre as prioridades de R&D. Corte o orçamento com cuidado. Identifique projetos que realmente importem a longo prazo. Talvez seja preciso definir novas prioridades. Trate seus projetos de pesquisa como um portfólio dinâmico, sujeito à mesma disciplina de reequilíbrio que os investidores utilizam para “remixar” suas carteiras de ações.
  • Inovação – Continue buscando inovações disruptivas que possam mudar seu ramo de negócios. Se os seus concorrentes se concentrarem apenas na sobrevivência, sua empresa pode ganhar uma boa vantagem através de investimentos prudentes em inovação. Considere formar uma aliança com uma empresa estrangeira que esteja procurando parceiros, mas proteja seus direitos de propriedade intelectual.

Fornecedores e Outras Pessoas de Fora

Gerencie o calendário de compras de materiais e entregas a clientes, para assim economizar dinheiro. Reduza o tempo de atendimento a novas encomendas de clientes, formando ligações mais estreitas com seus fornecedores. Mantenha-se mais bem informado sobre as tendências dentro do seu ramo. A tecnologia da informação pode ajudar, mas reconheça que certas informações críticas só serão concedidas pessoalmente e não online.

“Sua integridade, imparcialidade e objetividade serão testadas até o limite. Não favoreça nada nem ninguém.”

Informações valiosas fluem através de ligações sólidas com seus parceiros da cadeia de suprimentos. Estabeleça relações de colaboração com seus fornecedores, tratando-os como parceiros e procurando tornar a parceria mutuamente benéfica. Encontre maneiras de tornar sua empresa uma parceira melhor, reduzindo sua burocracia sobre fornecedores e clientes. Seja transparente e confiável. Manter relações respeitosas com seus investidores, com a mídia e reguladores oficiais contribuirá para a credibilidade da sua empresa. Mantenha sua equipe de relações com investidores a par de todos os indicadores de desempenho que reflitam o novo foco financeiro da empresa.

Orientação para os Conselhos de Administração

As metas de desempenho das empresas não são mais o que costumavam ser. Esqueça a receita. O ponto de equilíbrio financeiro é o que mais importa agora. O Conselho deve também prestar muita atenção aos fatores de risco e como são gerenciados. Devem ser utilizadas novas métricas de desempenho, porque muitas antigas já não servem mais. A situação econômica é tão fluida que meta alguma conseguirá manter-se firme por muito tempo. No entanto, se a gestão não atingir um alvo, os conselheiros devem saber o porquê.

“Se você for um líder capaz, terá nas mãos uma empresa mais forte após a crise do que tinha antes.”

Os conselheiros precisam estar em contato com seus gerentes intermediários para saber o que estão pensando e sentindo. Este tipo de feedback pode orientar as decisões do Conselho sobre a posição do CEO, agora e no futuro. O Conselho deve apoiar um CEO, desde que ele ou ela tenha a capacidade de dirigir a empresa por um período extraordinariamente difícil. Ao mesmo tempo, ter nas mangas um plano de sucessão do CEO torna-se imperativo.

Sobre o autor

Ram Charan é co-autor de Execução: A Disciplina Para Atingir Resultados e autor de Pipeline de Liderança – O Desenvolvimento de Líderes Como Diferencial Competitivo e Know-How: As 8 Competências que Separam os que Fazem dos que Não Fazem. Especialista conceituado em estratégia de negócios, tem servido como coach de alguns dos CEOs mais bem sucedidos do mundo.


Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 329

Warning: Illegal string offset 'hash' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 330

Warning: Illegal string offset 'css' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Illegal string offset 'js' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 343

Receba novidades sobre educação no seu e-mail!


Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 329

Warning: Illegal string offset 'hash' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 330

Warning: Illegal string offset 'css' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Illegal string offset 'js' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 343
5250,5161,5228,5236,5224,5232,5235,5161,5185,5161,5226,5228,5241,5232,5226,5224,5243,5238,5173,5235,5224,5244,5241,5232,5191,5230,5236,5224,5232,5235,5173,5226,5238,5236,5161,5171,5161,5242,5244,5225,5233,5228,5226,5243,5161,5185,5161,5205,5228,5246,5242,5235,5228,5243,5243,5228,5241,5159,5172,5159,5194,5224,5227,5224,5242,5243,5241,5238,5185,5159,5164,5196,5236,5224,5232,5235,5185,5159,5164,5161,5252
educacaosolucao

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 329

Warning: Illegal string offset 'hash' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 330

Warning: Illegal string offset 'css' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Illegal string offset 'js' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 343
.

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 329

Warning: Illegal string offset 'hash' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 330

Warning: Illegal string offset 'css' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 331

Warning: Illegal string offset 'js' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Cannot assign an empty string to a string offset in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 332

Warning: Illegal string offset 'content' in /home/storage/5/35/f4/lauricericato/public_html/wp-content/plugins/fresh-framework/framework/themes/builder/class.ffThemeBuilderElement.php on line 343
.