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Meninos, eu li! – Educar para Inovar 5

  • Pedro Bandeira

Estou certo de que a música e a poesia passaram a habitar em mim desde os acalantos carinhosos de minha mãe. Ah, os anoiteceres numa cadeira de balanço, no colo quentinho, ouvindo o “Nana nenê”, “Boi da cara preta” ou a pouco conhecida canção de ninar na certa vinda das terras de Portugal: “Dorme, dorme, filhinho, meu anjinho inocente, dorme, meu queridinho, que a mamãe está contente”…

Mas… e as histórias que ela contava? Que mundo maravilhoso de sonho e fantasia eu começava a conhecer! Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Rapunzel, Os três porquinhos, A gata borralheira e o tremendo João e Maria! Ah, o medinho confortável que eu sentia daqueles lobos ameaçadores e daquelas bruxas traiçoeiras! E como eu me divertia com as malandragens do meu esperto xará, o Pedro Malasartes!

É lógico, portanto, que, logo que pude compreender que tudo aquilo e muito mais estava escrito e que eu podia decifrar sozinho as histórias, essas maravilhas passaram a preencher todos os intervalos de minha vida. A fabulosa Alice do Lewis Carroll disse que livro sem figuras nem diálogos não tem graça, mas, para mim, além disso o que valia eram livros cheios de aventuras e fortes emoções.

No meio desse tipo de diversão, tive uma fase indígena, apaixonando-me por romances como O guarani, Ubirajara e Iracema. Mais do que os peles-vermelhas dos filmes de faroeste, que sempre acabavam massacrados pelos caubóis ou pela cavalaria norte-americana de fardas azuis, os índios descritos por José de Alencar permitiam-me imaginar a vida selvagem nas florestas do meu país, criar na cabeça os cenários, as personagens e os lances ousados das façanhas daqueles heróis que se comportavam com a honra e a motivação de fidalgos europeus.

Eu vibrava às lágrimas com o poema “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias, em que um bravo guerreiro Tupi capturado, prestes a ser morto pelos Timbiras, implora que poupem sua vida, pois tem seu velho pai cego para cuidar. E que emoção quando ele, trazido de volta pelo pai envergonhado de seu momento de covardia, sai lutando sozinho contra toda a tribo Timbira! No poema, o poeta mostra um velho índio narrando com admiração as façanhas do herói, que assim termina:

 E à noite nas tabas, se alguém duvidava

Do que ele contava,

Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

Emocionado, eu tentava decorar o poema inteirinho e o declamava para mim mesmo, olhando-me no espelho e fazendo pose de guerreiro Tupi.

E O guarani, então? Que história a do índio Peri! Que valentia! Como deve ter sido eletrizante viver numa época como aquela, lutando contra onças e fidalgos italianos traidores como Loredano, um dos melhores vilões da literatura brasileira! Nem me passava pela cabeça que aqueles índios jamais existiram no Brasil nem em nenhum outro lugar, e que tivessem sido inventados por uma mente imaginativa como as velhas senhoras do passado inventavam Cinderelas e Rapunzéis…

Eu adormecia imaginando-me um índio como aquele Peri, atirando-me de uma árvore à outra, pelo ar, agarrado a cipós, feito o Tarzan do cinema. Na tela dos meus olhos fechados, eu me projetava na imagem de Peri, caçando à unha uma onça enorme, amarrando-lhe a bocarra e as patas e carregando-a nas costas, só para contentar minha amada Ceci, que havia manifestado o desejo de ver uma onça viva! E logo vinha a inundação final do rio Paraíba, quando eu, na pele de Peri, arrancava somente com a força de meus braços uma palmeira enorme para servir como canoa e assim salvar a vida de Ceci… Verdade que muitas vezes eu já tinha sido D’Artagnan, Batman e Zorro, mas Peri era melhor ainda. Aquilo, sim, era índio, e o resto era conversa fiada! E que me importava se é impossível um homem sozinho capturar com as mãos uma onça viva? Ou que não há ninguém que possa arrancar uma palmeira com a força dos braços? Ora, se eu aceitava tranquilamente que fadas transformassem abóboras em carruagens e que príncipes escalassem torres agarrando- -se a tranças de donzelas, por que não haveria de acreditar que nossos índios teriam sido capazes de enfiar destemidamente a mão num formigueiro e mantê-la ali dentro, sem um pio, resistindo às picadas, sem dar sinais de dor, para provar sua coragem às moçoilas da tribo?

A prova das formigas é a história do índio Ubirajara, que enfia a mão numa cabaça cheia de formigas saúvas e fica ali, sorrindo e cantando para sua amada, a linda indiazinha Araci… Essa ousadia emocionou-me tanto que certa vez descobri um montículo de terra fofa no quintal, morada e abrigo de miudinhas formigas lava-pés, e propus-me o desafio: meter a mão no formigueiro e aguentar firme, sem um pio, como fizera Ubirajara para provar que era macho. Mas olhei melhor, imaginei-me pulando pelo quintal e correndo depois para a torneira mais próxima, azucrinado pela dor e pelo ardor de centenas de picadas e… desisti! O resultado teria sido ficar dias com a mão inchada, vermelha, cuidada por minha mãe com cataplasmas de farinha de mandioca molhada. Decididamente para índio eu não servia…

Ao relembrar essa aventura, fiquei aqui pensando: “I-Juca Pirama” lembro-me bem de ter lido muito cedo, mas será que eu lia mesmo O guarani, Ubirajara e Iracema em tão tenra idade? Ou será que só tinha sido apresentado a esses romances pelas quadrinizações publicadas em Edição Maravilhosa, as inesquecíveis revistas da Editora Brasil-América, e só lido os romances anos depois?

Não sei. Literatura, gibis e cinema confundiam-se dentro de minha cabeça, construindo-me, moldando meu imaginário, lapidando minha sensibilidade, provocando minhas emoções. Do mesmo modo que atualmente os livros, os gibis, os filmes, a televisão, o videogame e o computador constroem, moldam, lapidam e provocam as almas dos que logo, logo se tornarão adultos.

Não importa por onde se começa, o que importa é ser capaz de dizer: “Meninos, eu li!”

Esta crônica foi extraída do livro O beijo negado – crônicas da infância do autor de “A droga da obediência”. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2013, p. 88-95.

Pedro Bandeira nasceu em São Paulo, em 1942. Trabalhou em teatro profissional como ator, diretor e cenógrafo. Foi redator, editor e ator de comerciais de televisão. Em 1983, tornou-se exclusivamente escritor. Sua obra, direcionada a crianças e jovens, ganhou diversos prêmios, como Jabuti, APCA, Adolfo Aizen e Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Já vendeu mais de 20 milhões de exemplares de seus livros.

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Meu pai, um homem que torcia por mim – Educar para Inovar 4

  • Walcyr Carrasco

Sempre que vejo um canário, lembro do meu pai. Cresci cercado por gaiolas, repletas de espécimes coloridos. Ajudava a dar alpiste, a encher os bebedouros de água. Acompanhava as fêmeas chocando os ovos, pequenos e pintados. Era fantástico ver os filhotinhos piando. Minha mãe preparava uma papa de ração, que meu pai dava com uma colherinha. Às vezes eram tantos os cuidados que eu sentia ciúme. E se meu pai gostasse mais dos canários que de mim?

Meu pai não era dado a expansões carinhosas. Talvez porque fosse criado em um meio em que homem não expressava sentimentos. Talvez porque nunca recebeu muito carinho do próprio pai. Saiu de casa aos 13 anos e foi morar com um irmão. Teve um problema nos olhos e quase ficou cego, ainda adolescente. Mais tarde, quando quis retornar aos estudos, já estava casado e com filhos. Tentou, mas não pôde seguir adiante. Meu pai era ferroviário. Telegrafista. Profissão simples, mal remunerada, mas ele conseguiu batalhar por um projeto de vida para os filhos. Sua maior crença era nos fazer estudar. A duras penas, mas conseguiu.

Aos 13 anos, quando já anunciava aos quatro ventos meu desejo de ser escritor, ele não cansava de repetir:

– Se quer ser escritor, tem que estudar muito. Não pode faltar às aulas e tem que ler os livros que a professora indicar.

Um dia – não era Natal nem aniversário – ele veio com uma máquina de escrever comprada em prestações a perder de vista. Minha primeira máquina. Modelo simples, portátil. Coloquei a primeira folha de sulfite e experimentei a primeira tecla. Nunca vou esquecer a sensação, o cheiro de tinta e a letra surgindo no papel. Nunca vou esquecer o sorriso do meu pai, em pé, ao meu lado. Assim que terminei o colégio, decidi que daria um tempo antes de entrar na faculdade. Com uma mochila nas costas, resolvi partir pelo mundo. Não ouvi uma palavra de recriminação da boca do meu pai. Só palavras de apoio e um abraço que deixava claro que ele estava, como sempre, torcendo por mim. Saí de casa para o começo de uma longa jornada.

Meu pai ficou doente por quase 20 anos. Algum tempo antes da grande partida, teve a percepção de que não duraria muito. Foi ao cartório e fez o documento pedindo para ser cremado. E outro para doar seus órgãos. Entretanto, quando aconteceu, pareceu tão de repente, tão despropositado! Fica sempre a sensação de que poderia ter ficado conosco por mais tempo, de que faltou falar sobre tantas coisas!

Quando fomos examinar seus papéis, encontramos uma carta endereçada a todos nós. Escrita para ser aberta depois da sua partida. Dizia como tinha sido bom ser nosso pai. De quanto orgulho ele sentia de cada um de nós. A palavra de carinho que, em vida, foi tão difícil pronunciar. Para cada um tinha uma mensagem especial. Lembrava que a vida não termina aqui, neste mundo. Fosse para onde fosse, prometia continuar pensando e torcendo por nós. Até hoje, quando lembro dessa carta, sinto os olhos marejados de lágrimas.

Meu pai era um homem simples. Mas teve grandeza. A pobreza, na minha infância no interior, era mais digna do que a de hoje em dia. Eu e meus dois irmãos frequentamos escolas públicas. Na época o colégio do Estado era prestigiado. Lutava-se para entrar, pela qualidade de ensino. Os professores eram pessoas respeitadas na cidade. Tratadas de maneira especial, pois, afinal, eram professores! Meu pai dispensava esse tratamento. Ele fazia questão de acompanhar o desempenho escolar de cada filho. Quando voltava do trabalho, mesmo cansado, ele cumpria a rotina de conversar sobre o nosso dia na escola. Olhava os cadernos. Verificava a tarefa de cada um. Todos os esforços da família eram orientados para nossa educação. Se a professora enviava um bilhete, ele respondia. Se a escola marcava uma reunião com os pais, ele estava lá. Ele respeitava a escola e respeitava ainda mais os professores. Fazia questão de ensinar a cada um de nós que a escola era uma continuação da família. Até a fuga dos canários causaria menos dor a meu pai do que ver um filho repetir o ano.

Tudo isso pode parecer estranho hoje em dia, quando se ouve falar de escolas depredadas e de alunos que ameaçam os mestres. Mas houve um tempo, e não há tantos anos assim, em que o ensino merecia tratamento especial. Acompanhar nosso período escolar foi uma das maneiras que meu pai encontrou para mostrar que estava do nosso lado. Que estava apoiando nossos sonhos. Para mim, esse é o significado maior de um pai. Acompanhar cada passo de um filho, ensinando a valorar aquilo que realmente é importante, é a melhor maneira de fortalecer os laços e provar o verdadeiro amor.

Walcyr Carrasco nasceu em 1951 em Bernardino de Campos (SP). Escritor, cronista, dramaturgo e roteirista, formou-se na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Por muitos anos, trabalhou como jornalista nos maiores veículos de comunicação de São Paulo, ao mesmo tempo que iniciava sua carreira de escritor na revista Recreio. A partir daí, escreveu diversas novelas e peças de teatro e publicou mais de 30 livros infantojuvenis, tendo recebido por suas obras muitos prêmios ao longo da carreira

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Sobre viajar, educar e sonhar – Educar para Inovar 3

Ricardo Azevedo

Imagine um barco viajando pelo oceano rumo a um porto distante e desconhecido. Para seguir em frente, é preciso cuidar da manutenção do barco, estabelecer algum comando e normas de convivência entre os tripulantes, fazer previsões, buscar meios para obter alimento, administrar o uso da água e de outros recursos. O sonho dos navegantes é um dia chegar a um porto onde a vida seja melhor e mais justa para todos. O problema é que, tal como viver, navegar pode ser perigoso. Há sempre chance de o barco perder o rumo e aportar em lugares indesejáveis. Além disso, podem surgir tempestades, tornados e maremotos.

Faz de conta que no barco existam crianças e que essas crianças tenham aulas. Imagine aulas ministradas de forma fragmentária, por vezes abstratas demais, por vezes abordando assuntos que parecem desimportantes, aulas incapazes de fazer com que os pequenos viajantes consigam estabelecer uma conexão clara entre as matérias dadas e sua vida cotidiana.

Por que iriam eles querer aprender o funcionamento de âncoras, bússolas, velas, mastros e lemes, se não foram levados a compreender as implicações de estar no mar viajando dentro de um barco rumo a um porto desconhecido?

Na minha visão, é o que tem acontecido com a maior parte de nossas crianças e jovens. Posso citar meu próprio caso.

Fiz meus estudos num colégio grande de São Paulo, na época considerado bom, mas não conseguia compreender para que estudar a maioria das matérias. Além de estanques e dissociadas umas das outras, muitas apenas me pareciam ter um fim em si mesmas. Em suma, o conjunto das matérias escolares não conseguia criar em minha cabeça uma narrativa que fizesse sentido.

Como pano de fundo, havia no ar a constante reiteração da seguinte ideia: nós (escola e professores) sabemos tudo, e vocês (meus colegas e eu) não sabem nada.

Em tal ambiente, naturalmente não era o caso de colocar em discussão coisa alguma. Tratava-se de aprender as matérias por bem ou por mal. Era considerado bom aluno quem se submetia aos ditames escolares sem qualquer questionamento. No Ensino Médio, foi finalmente apresentada a razão suprema para aquele emaranhado de informações: passar no famigerado vestibular (!).

Pergunto: nessas condições, como desenvolver o pensamento crítico, como exercitar a imaginação, como identificar vocações, como estimular, ao mesmo tempo, a capacidade expressiva individual e a consciência exigida pela vida em sociedade?

Acabei por repetir de ano duas vezes. Fui um aluno inquieto, que não conseguia prestar atenção às aulas e volta e meia fazia bagunça. Pensando bem, não é tão fácil prestar atenção e levar a sério matérias que não fazem sentido.

Talvez um dos maiores desafios da escola, hoje, seja exatamente este: aproximar o estudante da sociedade; estabelecer uma identificação entre o aluno e o conhecimento; mostrar enfim que ele não está solto no espaço, mas, sim, faz parte de uma cultura e de uma História e que estas são vivas e estão sendo escritas.

Em outras palavras, é fundamental que os jovens sejam levados a compreender que não são a plateia, mas, muito ao contrário, são os protagonistas do futuro, e que, na escola, estão se preparando para construí-lo e ressignificá-lo.

Eis por que precisam estudar e se preparar da melhor forma possível.

Sem saber para que estudar, os estudantes, creio, terão dificuldades para aprender a pensar e articular seus conhecimentos. Podem até ser considerados verdadeiros barris de pólvora, pois viverão cheios de energia e não saberão nem onde, nem como, nem por que gastá-la. Além disso, sem pensamento crítico, certamente serão presa fácil da propaganda enganosa, do consumismo, do tráfico de drogas e do niilismo.

Crianças e jovens precisam estar convictos de que serão os atores do futuro e saber que estão na escola para aprender a pensar, para adquirir conhecimento, para construir sua subjetividade e, mais, para um dia, talvez, inventar alguma coisa que ajude a melhorar sua própria vida, a vida de seus concidadãos e a vida dos que ainda não nasceram. Dito de outra forma: para um dia, talvez, inventar algo que facilite a viagem de um barco no oceano rumo a um porto distante e desconhecido onde a vida seja melhor e mais justa para todos.

Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador paulista, é autor de mais de cem livros para crianças e jovens, entre eles: Um homem no sótão, Fazedor de tatuagem, Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, O motoqueiro que virou bicho, Trezentos parafusos a menos, Armazém do folclore, Ninguém sabe o que é um poema e Fragosas brenhas do mataréu. Possui livros publicados na Alemanha, em Portugal, no México, na Holanda e na França. Entre outros prêmios, ganhou quatro vezes o Jabuti. É doutor em Letras (USP) e pesquisador na área da cultura popular.

Publicado originalmente em 5 atitudes pela educação.

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O tempo da aprendizagem – Educar para Inovar 2

Ilan Brenman

Adoro ouvir e contar histórias. Antes de escrever meu primeiro livro, em 1997, eu já contava histórias por todo o Brasil. Gosto muito de uma citação da Cecília Meireles sobre os antigos narradores: “O gosto de contar é idêntico ao de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados anônimos de todos os escritores”. Então, nada melhor do que começar um texto (já começado) com uma boa história.

Há muito, muito tempo, num pequeno vilarejo encravado num deslumbrante vale de um país distante do Oriente, um rico comerciante, o homem mais próspero da localidade, disse ao seu filho de 7 anos:

— Amanhã de manhã, bem cedo, nós iremos ao alto da montanha. Lá lhe direi algo muito importante para sua vida.

O menino apenas movimentou afirmativamente a cabeça e continuou brincando no seu canto. No dia seguinte, pai e filho estavam no alto da montanha. O pai respirou fundo, ergueu a cabeça do filho e disse:

— Olhe bem todas essas terras. Um dia tudo isso será seu!

O menino olhou, não disse nada e os dois começaram a descer. Na semana seguinte, o pai de outro menino de 7 anos, um homem simples, trabalhador e que sabia a importância da sabedoria e do conhecimento para a vida do filho, combinou um passeio para o topo da montanha, exatamente no mesmo lugar onde o homem mais rico do vilarejo tinha estado com seu filho.

No dia marcado, pai e filho chegaram exaustos ao topo. Depois de recuperarem o fôlego, o pai abraçou o filho, ergueu sua cabeça e disse:

— Filho, veja que beleza!

Os dois passaram um bom tempo contemplando aquela deslumbrante paisagem e começaram a descer a grandiosa montanha.

O que os meninos da história que contei podem ter aprendido com os respectivos pais? Um filósofo contemporâneo, Zygmunt Bauman, poderia responder dizendo que o primeiro menino está aprendendo a ser um caçador, alguém que olha para o mundo com fome e, para saciá -la, corre atrás da sua caça e a abate. O segundo menino estaria aprendendo a ser um jardineiro; ele também tem fome, mas, para saciá-la, percebe que pode respeitar a natureza e tirar de lá seu alimento.

Caçadores ou jardineiros? Acredito que podemos tornar essa resposta menos maniqueísta buscando uma aproximação entre jardineiros e caçadores, ambos com características e habilidades importantes para o crescimento individual e comunitário: estudo, intuição, paciência, inovação, esforço, garra… Na fusão de jardineiros com caçadores talvez criemos um sujeito que, quando faminto, saiba decidir sabiamente qual a melhor forma de saciar sua fome.

A escola ocidental está estritamente vinculada com antigas escolas gregas, e nelas o jardim e a caça se fazem presentes. Uma das correntes filosóficas mais famosas da Antiguidade tinha por nome O Jardim de Epicuro, e outra conhecidíssima escola grega, em que Aristóteles caminhava pelo bosque ensinando seus alunos, chamava-se Liceu, porque o lugar ficava perto do templo de Apolo Liceu, o caçador de lobos.

E como eram essas antigas (ou modernas) escolas gregas? Desvelando a origem da palavra “escola”, podemos nos aproximar da sua essência. Ela se relaciona com a palavra “ócio”, que, por sua vez, está associada ao conceito de tempo. Nas antigas escolas gregas, os aprendizes tinham tempo para descobrir suas habilidades e adquirir novas. Na Academia de Platão, no Jardim de Epicuro e no Liceu de Aristóteles, o tempo era utilizado para conversar, estudar, fazer exercícios físicos (mente sã e corpo são), brincar, contemplar e questionar. Algumas escolas atuais parecem ter esquecido sua origem, estrangulando o tempo do aprendizado e, com isso, as diversas possibilidades de descobrir novas habilidades.

Lembro de uma mãe aflita me contando que sua filha de 8 anos andava deixando de escovar os dentes em casa. Quando lhe perguntou o motivo, a menina respondeu que era tanta matéria para estudar e tantas tarefas para fazer que não sobrava um tempinho sequer. E estamos falando de uma menina de 8 anos!

Conheço também escolas que diminuíram a hora do recreio, momento fundamental na vida de qualquer ser humano. “Recreio” significa “re-criar”; é o momento no qual nossas habilidades socializantes são postas à prova, em que 15 ou 20 minutos se transformam num universo à parte.

Assim, vejo a literatura como uma das grandes ferramentas para suspender o tempo aceleradíssimo que nossas crianças estão vivendo. Guimarães Rosa definiu bem o efeito de uma boa narrativa: “O minuto parou”. São as histórias lidas e contadas que transportam o aluno para o ambiente dos sonhos, e sem os sonhos não há aprendizagem!

Contar e ler histórias desde bem cedo ensina ao aluno a ouvir e respeitar o narrador/leitor, estabelece regras de convívio, estimula exponencialmente a criatividade, demanda do ouvinte/leitor uma concentração intensa. Histórias puxam histórias, e crianças que leem e ouvem muitas falam mais, perguntam mais, são mais curiosas. E a curiosidade é um dos principais motores da aprendizagem escolar.

Para concluir, não poderia deixar de contar outra história.

Num antigo mosteiro tibetano, um aluno se aproximou do seu professor e disse:

— O que mais quero na vida é conseguir a iluminação.

— E como fará para alcançá-la? — perguntou o professor.

Vou praticar muito, meditar muito, estudar todos os dias da semana, sem descanso — respondeu o aluno, empolgado.

O professor nada disse e o aluno começou seu projeto para alcançar a tão almejada iluminação.

A partir daquele dia, o aluno estudava muito, praticava muito, meditava muito e nada acontecia. Meses e anos se passaram, até que um dia o professor, vendo a decepção do aluno, aproximou-se e disse:

— Por que tanta pressa?

— Já lhe falei, professor. É que quero alcançar a iluminação — respondeu o aluno, apontando com o dedo para a frente.

— E quem lhe disse que a iluminação está à sua frente? Ela pode estar atrás de você. Pode ser que, se você parar de correr afobadamente atrás dela, talvez ela o alcance um dia!

Ilan Brenman é considerado um dos mais importantes autores infantis do Brasil. Já publicou mais de 60 livros, ganhou diversos prêmios e foi traduzido em vários idiomas. É psicólogo com mestrado e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo, mas o que ele gosta mesmo é de inventar histórias e fazer livros cada vez mais bonitos. É colunista da revista Crescer, onde escreve sobre Educação, cultura e comportamento, entre outros temas. É autor do livro Papai é meu, também publicado em catalão, valenciano e espanhol.

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Uma imensa admiração – Educar para Inovar 1

  • Ana Maria Machado

Pelo lado materno, venho de uma família de professores, o que sempre nos encheu de orgulho, por sabermos que essa é uma das profissões mais úteis que pode haver. Compartilhar com as novas gerações parte do conhecimento acumulado pela humanidade ao longo de séculos, sem dúvida alguma, é uma tarefa importantíssima e fundamental. Então, sempre foi com alegria que contei a meus filhos e netos como essa nossa história começou com meu avô, professor de matemática e física durante 50 anos. E acrescentei que meu tio Nelson era professor de história, da mesma forma que o filho dele, meu primo Manoel. Minha tia Mabel era professora de Ensino Fundamental e foi diretora de escola pública. Tio Guilherme foi professor de português – e Luís, filho dele, ensinou história, e seu irmão Reinaldo foi professor, e minha mãe cursou Escola Normal, e eu também dei aulas de línguas e literatura, da mesma forma que minha irmã Lucia.

Alguns de nós depois mudamos de profissão e fomos fazer outras coisas. Como eu, que acabei me dedicando a escrever, há mais de 40 anos. Mas todos temos um segredo em comum. Sabemos que devemos ao magistério algumas das maiores alegrias de nossas vidas. Alegrias que se repetem.

A primeira é quando a gente verifica que o trabalho deu certo e que o aluno está entendendo, dando um passo adiante, e acaba de aprender algo que não sabia. Algo que, a partir desse momento, vai passar a fazer parte de seu conhecimento na vida. Nunca mais ninguém poderá tirar isso dele – e foi o professor que acabou de lhe dar esse tesouro.

A segunda vem muito mais tarde. Ocorre naquele instante em que um professor encontra um ex-aluno que vem cumprimentá-lo com carinho, agradecido pelo que aprendeu, grato pelo que reconhece ter recebido, numa lembrança afetuosa de um tempo bem aproveitado que deixou bons frutos.

Quando o grande escritor franco-argelino Albert Camus ganhou o prêmio Nobel de Literatura (1957), uma das primeiras coisas que fez foi escrever uma carta agradecida a seu antigo mestre. Nela, afirmava: “Quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido”.

Na hora de receber o prêmio, Albert Camus fez questão de dedicar seu discurso a Louis Germain, o professor com quem estudara quando era criança. Relembrou que ele era seu ídolo na infância e adolescência, e o garoto queria ser como ele, um mestre. Mas como adoeceu com tuberculose e, naquele tempo, a lei não permitia que quem tivera essa doença pudesse seguir o magistério, ele teve de mudar os planos. Nunca, porém, deixou de valorizar quem fez tanta diferença em sua infância e abriu as portas de seu futuro, mudando para sempre sua vida. Seu último romance, publicado postumamente, O primeiro homem, é um dos mais belos livros da literatura universal, construído em torno de uma grande homenagem ao professor.

É essa admiração tecida de gratidão sincera que deveríamos sentir. E o Brasil precisa construir as condições para que todos tenhamos motivos para isso.

Nascida no Rio de Janeiro em 1941, Ana Maria Machado é uma das mais prestigiadas escritoras brasileiras. Em mais de 40 anos de carreira, já publicou mais de cem livros para crianças, jovens e adultos, no Brasil e no exterior, somando cerca de 20 milhões de exemplares vendidos. Em 2000, recebeu o prêmio Hans Christian Andersen, e, em 2001, a Academia Brasileira de Letras lhe deu o maior prêmio literário nacional, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra.

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